Por anos fiz parte da população brasileira que, segundo dados do setor, recorre aos serviços financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em mais de 70% dos casos em que precisa de atendimento médico. Senti na pele os problemas da saúde pública e, hoje, atuando como empresário do setor de medicina diagnóstica em análises clínicas, é ainda mais forte a minha defesa por uma mudança de organização da saúde pública em prol de uma melhoria na qualidade de atendimento. Acredito que uma das alternativas para que isto ocorra seja por meio da parceria entre as iniciativas privada e pública, com a adoção de atendimento mais humanizado e processos mais mod ernos para análise dos exames.
O serviço de análises clínicas é primordial para o auxílio diagnóstico, detecção precoce de doenças e acompanhamento de resultado de tratamentos. Quando realizado adequadamente, além de promover melhora na percepção de saúde da população, promove grande economia de recursos aos cofres públicos, pois evita a internação e custos gerados pelo tratamento de doenças em estado avançado.
No entanto, a realidade mais comum é a população mais pobre procurar por algum cuidado médico quando o seu estado de saúde já está debilitado, necessitando, assim, de um tratamento mais intensivo e de alto custo. E não é difícil entender o porquê deste comportamento. Na rede pública, o agendamento para os exames de análises clínicas é feito, em média, após dez dias da solicitação médica e os resultados ambulatoriais levam mais dez dias para serem entregues.
Entre os fatores que comprometem a qualidade da saúde pública, destaco a desorganização, que poderia ser resolvida com o devido monitoramento dos exames colhidos, banco de dados dos pacientes e controle total dos exames solicitados. Além disso, faltam recursos humanos, treinamento adequado, insumos, metodologias modernas e equipamentos automatizados para agilizarem os processos de realização e entrega de exames à população.
É diante deste cenário que defendo a um sistema laboratorial interfaceado com o sistema de saúde pública, permitindo visualizar os exames realizados por cada paciente, evitando, assim, as repetições de procedimentos e desperdício. Além disso, o sistema integrado é mais inteligente e oferece praticidade, pois torna possível avaliar quais e quantos exames são produzidos, se as solicitações são pertinentes ou se estão sendo feitos exames desnecessários.
Um banco de dados com informações sobre local da residência do usuário SUS, quais foram os últimos exames realizados e qual o seu prontuário em análises clínicas possibilitaria a realização e divulgação de campanhas preventivas de saúde, o que evitaria futuros problemas com pacientes crônicos. Além disso, a agilidade na entrega de resultados e a sincronia do banco de dados do SUS e do laboratório diminuem a reemissão de pedidos de exames e o número de internações. Assim, os recursos economizados podem ser aplicados para ampliação do número de atendimento laboratorial ou de leitos, no caso dos hospitais públicos, melhorando a sa tisfação dos cidadãos frente aos serviços públicos.
Tudo isso pode parecer distante da realidade, mas já está sendo aplicado com grande sucesso no município de Taubaté, no Vale do Paraíba, em São Paulo. O Laboratório do Povo, posto de realização de exames de medicina diagnóstica em análises clínicas da cidade, revolucionou o atendimento público da região.
Antes da implantação do Laboratório do Povo, o prazo médio de entrega dos resultados, na rede SUS, era de superior a 15 dias. Hoje, exames de baixa e média complexidade são entregues em 24 horas. Outro diferencial diz respeito às instalações, que são amplas e agradáveis. A população entra desconfiada, achando que aquele não poderia ser um posto de saúde pública, mas é sim. Um atendimento público com qualidade de saúde privada.
* Rogério Saladino é empresário e presidente do Grupo BIOFAST, uma das principais redes de laboratórios de análises clínicas do País